quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Aquela casa da esquina

            Espanto inicial, emoção enorme no final! Tudo aconteceu assim tão inesperadamente, que jamais poderia supor que teria uma revelação tão maravilhosa.
            Desde criança para mim, aquela casa era mal assombrada. Casa enorme de esquina estilo bem antigo, para a época; sua construção deveria ter sido belíssima, mas naquele tempo, que me chamou atenção, era velha, as venezianas com tábuas soltas pela calçada, o alpendre com ladrilhos gastos, sem brilho, a mobília de madeira esbranquiçada pelo tempo. Era o que meu irmão e eu apreciávamos pelo lado de fora.
            Perto de minha casa há umas duas quadras, quando tínhamos meu irmão e eu passar por ela, íamos pela outra calçada, nossos olhos curiosos e temerosos sempre procurávamos perceber algo diferente. Assim crescemos com aquela mesma impressão.
            Hoje, após vinte anos de ausência, já adulta, vivida, tornei a passar por aquela casa. Ela continua lá, com o mesmo aspecto de abandono, velha, mas havia gente morando nela ainda.
            Dona Tereza nossa antiga vizinha foi nos visitar. Conversa vai, conversa vem, lembrei que ela morava bem mais próxima daquela casa “mal assombrada”. Ela conhecia os moradores daquela casa.
            – Dona Tereza nos conte alguma coisa sobre os moradores daquela casa que para nós, meu irmão e eu, era “mal assombrada”.
            Contei a ela os nossos medos, que sempre que passávamos por ela, sempre íamos pelo outro lado da calçada.
            Foi então que ela cheia de emoção começou a falar.
            – Naquela casa morava a mãe e quatro filhos cegos.
            Contou-nos ainda que aquela mãe com toda sabedoria, e coragem educou aqueles filhos, se tornaram adultos, ela mesmo os alfabetizou, com ela morava também uma sobrinha de olhos grandes, tristes, magrinha (me lembrei dela menina como eu, nas missas domingueiras).
            O que me deixou perplexa foi a continuação daquela revelação.
            Dona Tereza continuou falando:
            – Eu toda semana vou até lá levar comunhão para todos. No início, eu achei que eu iria lá para confortar, animar e levar uma palavra. Ledo engano!
            Ao contrário acontece quando vou até lá. Aquela mãe me encanta, e me admirei muito quando ela disse que seus filhos não felizes e que são operários. Operários? Sim operários de Nossa Senhora!
            Aquela mãe começou ensinando seus filhos a orar e o serviço deles era orar pelas pessoas que passavam por lá e pediam oração, sabedores do que ocorria dentro daquela casa.
            Meu queixo caiu! Como não conhecemos nada!
            Hoje, eles oram o dia todo. Os padres, bispos da diocese vão até lá para pedir orações, como muitas outras pessoas. E tem mais... Uma vez por mês os padres vão até aquela casa celebrar missa para a família e os vizinhos.
            Como fiquei naquela cidade só dois dias mais, não pude visitar aquela casa.
            Combinei que em outra oportunidade irei até lá, acompanhada pela Dona Tereza.
            Como fiquei emocionada ao conhecer e perceber a sabedoria e a firmeza daquela mãe. Ao invés de se desesperar consegui fazer de seus quatro filhos cegos, pessoas dignas, felizes e que tinham uma profissão: operários de Nossa Senhora!
            Continuando a revelação, ainda naquele dia nos contou que eles cantam muito e que nas horas de refeição, ela coloca uma corda na cintura dela e seus filhos apoiados na corda com suas mãos, chegam, guiados por ela até a mesa. Ela vai a frente e eles a seguem!
            Seguir esta mulher deve ser algo de divino, algo tão surpreendente e forte, que muitos de nós deveríamos conhecê-la, usufruir de sua amizade.
            Tenho certeza, que quando passar novamente por aquela casa acharei aquela casa encantadoramente bela, fantástica! Dentro dela, agora eu sei que habita um ser iluminado, inesquecível, uma mãe memorável.
            A ela, hoje singelamente, curvo a minha cabeça e lhe presto esta simples homenagem.
            Se no mundo existissem outras mães como ela, tudo se transformaria, o mundo seria melhor e tudo se tornaria novo!

MRBC

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